fevereiro 07, 2013
A força da união
Para combater a evasão escolar, o Colégio Odorico Leocádio da Rosa, de Rondonópolis (MT), investiu na consulta aos pais e alunos para melhorar a escola e na conscientização sobre a importância da frequência
Samantha Costa
| Para melhorar a frequência dos alunos, escola investiu na participação dos pais e em projetos que atraíssem os estudantes |
Reverter o quadro começou com a elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP) e, na sequência, a reformulação do regimento da escola. Com regras mais rígidas para pais e alunos - validadas pela Promotoria Pública - a escola passou a encaminhar para acompanhamento do Conselho Tutelar todo aluno que falta mais de três vezes sem justificativa, incluindo as viagens longas. "Quando um aluno falta, ligamos na casa, no celular dos pais para saber o motivo da ausência. Se o aluno ficou doente, cobramos o atestado. Caso contrário, chamamos os pais para conversar, explicamos a importância da presença da criança para acompanhar o conteúdo. Ao final, fazemos uma ata, que é assinada por todos os presentes. Só essa formalidade já deixa os pais mais atentos. Ninguém quer chegar no estágio do Conselho Tutelar", explica Maria Aparecida Reis, coordenadora dos primeiros anos do ensino fundamental da escola.
No processo de convencimento dos pais para a importância da presença de seus filhos em aula, a equipe pedagógica analisa a situação da família e conta sempre com o bom-senso. As famílias são entrevistadas no ato da matrícula, anual, quando recebem o regimento da escola e são informadas sobre a rigidez exigida. Conselho Tutelar só em último caso. "São questões delicadas, sabemos que quando um pai leva um filho para uma viagem de caminhão está pensando no melhor para a criança. Aí entra o nosso trabalho constante: explicar para cada família que tão importante quanto o convívio com os pais é a presença na escola", conta a diretora.
Plano de ação
A equipe da escola teve bastante trabalho para formular as novas regras - que vão desde a exigência do uniforme até o encaminhamento da família ao Conselho Tutelar em caso de faltas não justificadas - e aplicar o novo regimento. No início, a administração da escola foi criticada e houve resistência de alguns pais. Contudo, ao avaliarem os resultados obtidos na educação dos filhos, passaram a apoiar e incentivar os métodos da escola. "Fomos criticados, mas não esmorecemos. Os pais responderam aos estímulos da escola, se tornaram mais presentes. Frequentam as reuniões e escolhem a nossa escola por ser boa e por ter regras que são efetivamente cumpridas", explica Maria Aparecida. Assim como acontece com os alunos, a frequência dos pais nas reuniões e conversas com a escola é controlada. "Se não podem comparecer à reunião, marcamos um dia e horário em que eles consigam vir, mesmo que tenhamos de trabalhar além do nosso horário. Se não comparecem, utilizamos o mesmo procedimento adotado com as faltas dos alunos: três ausências, Conselho Tutelar", explica a coordenadora.
Ao mesmo tempo, a equipe da escola se empenhou em tornar a escola mais atrativa, para estimular a permanência dos alunos por mais tempo em suas dependências. Para isso, o Odorico Leocádio adotou duas frentes, a gestão democrática e as parcerias com órgãos públicos.
A gestão democrática convoca todos para opinarem sobre a escola e auxiliarem na elaboração das diretrizes anuais. Funcionários - desde quem cuida da limpeza, as merendeiras, professores até a direção -, pais e alunos podem opinar e sugerir melhorias para o ano seguinte. Os pais e alunos respondem a um questionário e participam de uma reunião geral para votarem o planejamento. "É um outro jeito de trazer os pais para perto da escola. Perguntamos sobre sua satisfação e a dos alunos em relação a vários aspectos da escola, como avaliam os professores, a coordenadora, a diretora. É bem democrático e abrangente", afirma Marisa. Além disso, na rede estadual do Mato Grosso, a comunidade escolar - funcionários, pais e alunos do 5º ao 9º ano - escolhe a diretoria da instituição. A gestão é de dois anos e o candidato pode ser reeleito uma vez.
Uma das sugestões dos pais que foi aplicada na escola foi a climatização das salas, antes mesmo da aprovação estadual de medida similar. "Nossa região é muito quente e seca. Os pais sugeriram a climatização da escola e com o dinheiro arrecadado na festa junina e de doações de alguns pais que possuem mais condições, conseguimos comprar equipamentos de ar condicionado para 70% das nossas salas. Isso interferiu diretamente na aprendizagem dos alunos", explica a diretora.
Os alunos também colaboram com ideias e execução de projetos, entre elas gincanas para os estudantes, programas de rádio e um jornal. Os dois primeiros já funcionam com envolvimento maciço dos alunos, só o jornal ainda está em avaliação, pois a escola estuda meios de viabilizar a elaboração do material. A rádio da escola é supervisionada pela coordenação e a programação fica por conta dos alunos e professores. Cada dia, uma turma diferente é responsável pelo funcionamento e programas, que têm notícias e músicas.
"Participei de todos os projetos da escola, que ajudaram a melhorar meu desempenho não apenas escolar. As gincanas, por exemplo, fizeram com que os alunos se integrassem, ficassem mais próximos", diz o estudante Lucas Souza, que cursa o 9º ano.
Alguns dos projetos são viabilizados por parcerias da escola. O programa Atleta Cidadão, feito junto com o Corpo de Bombeiros da cidade promove aulas de caratê para alunos e também é aberto para a comunidade. A escola também montou uma fanfarra, com instrumentos para a banda e aulas de música para os participantes, mantidas com verbas revertidas de penas alternativas aplicadas pela promotoria pública.
Há ainda dois projetos de incentivo à leitura, café da manhã das mães, gincana de matemática - com problemas do cotidiano -, oficinas de tamgram, e anualmente são trabalhados grandes temas para conscientização. "Ano passado fizemos sobre meio ambiente e sustentabilidade. Este ano trabalhamos a diversidade em um projeto que prevê a inibição do preconceito e agressões entre alunos", conta a coordenadora.
Rendimento escolar
No Estado do Mato Grosso, as escolas públicas obedecem à organização de ensino ciclado, que não reprova. Em vez disso, o aluno pode ter Progressão Simples (PS), que indica o desenvolvimento esperado para sua respectiva série, ou ser Promovido com Plano de Apoio Pedagógico (PPAP), que indica a necessidade de um acompanhamento pedagógico diferenciado numa sala de apoio, concomitante ao ensino regular - as articulações.
O programa de articulação é visto como carro-chefe da unidade. Toda escola no Estado do Mato Grosso possui articuladores, profissionais formados em pedagogia que retomam os conteúdos dados em sala de maneira diferente, como um reforço. A articulação acontece no período contrário às aulas de cada aluno e o auxilia no processo de aprendizagem. Para reforçar a importância desses profissionais, a escola cobra como frequência normal a participação dos alunos que apresentam baixo rendimento nestas atividades.
Em 2008, o Odorico tinha 50% de seus alunos com rendimento classificado como PPAP, resultado da evasão escolar. Em 2009, com o início do plano de ação diferenciado, a porcentagem de PPAP caiu para 21,71% e em 2010 caiu novamente, desta vez para 20,8%. A meta para 2011 é de reduzir o índice de PPAP para 20%.
O trabalho baseado em parcerias, participação dos pais e envolvimento de funcionários e alunos também resultou em melhorias do Ideb.
| A vanço conjunto | ||||
| Ideb | 2005 | 2007 | ||
| Anos iniciais | Anos finais | Anos iniciais | Anos finais | |
| 5 | 4,5 | 4,5 | 4,4 | |
| 2009 | 2011 | |||
| Anos iniciais | Anos finais | Anos iniciais | Anos finais | |
| 6,7 | 5,3 | 6,7 | 5,4 | |
| Ações: | ||||
| Elaboração de PPP e reformulação do regimento escolar | ||||
| Acompanhamento das faltas de alunos realizado junto às famílias pela equipe da escola | ||||
| Parcerias firmadas com órgãos públicos para proporcionar atividades extracurriculares atrativas aos alunos | ||||
| Gestão democrática: alunos, pais e funcionários opinam, sugerem e elaboram projetos de melhorias | ||||
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setembro 05, 2012
- Fabricio Escandiuzzi
- Direto de Florianópolis
A decisão foi confirmada pelo próprio órgão. Faber escreveu que o professor teria "dificuldades" em ensinar a matéria.
Em seu perfil Diário de Classe, a estudante começou mostrando maçanetas quebradas, fios de eletricidade expostos e outros problemas na escola municipal Maria Tomázia Coelho, na capital catarinense. Aos poucos, os problemas foram sendo resolvidos. Até a última quinta-feira, mais de 180 mil internautas haviam curtido a página da menina.
A secretaria de Educação elogiou a "postura crítica" da menina e retomou as reformas na escola.
O Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem), divulgou uma nota criticando a repercussão do caso. Para os sindicalistas, as escolas públicas enfrentariam os "mesmos problemas" e que isso não prejudicaria o trabalho dos servidores.
A prefeitura retomou as reformas e deve concluir as obras até o próximo dia 14 de setembro. A cobertura da quadra, entretanto, só deve ser incluída no orçamento de 2013.
março 31, 2012
Parcela de leitores passou de 55% para 50% da população entre 2007 e 2011. Até entre crianças e adolescentes, que leem por dever escolar, houve redução
Nathalia Goulart
(Thinkstock)
O brasileiro está lendo menos. É isso que revela a pesquisa Retrato da Leitura no Brasil, divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope Inteligência. De acordo com o levantamento nacional, o número de brasileiros considerados leitores – aqueles que haviam lido ao menos uma obra nos três meses que antecederam a pesquisa – caiu de 95,6 milhões (55% da população estimada), em 2007, para 88,2 milhões (50%), em 2011.
A redução da leitura foi medida até entre crianças e adolescentes, que leem por dever escolar. Em 2011, crianças com idades entre 5 e 10 anos leram 5,4 livros, ante 6,9 registrados no levantamento de 2007. O mesmo ocorreu entre os pré-adolescentes de 11 a 13 anos (6,9 ante 8,5) e entre adolescente de 14 a 17 (5,9 ante 6,6 livros).
Para Marina Carvalho, supervisora da Fundação Educar DPaschoal, que trabalha com programas de incentivo à leitura, uma das razões para a queda no hábito de leitura entre o público infanto-juvenil é a falta de estímulos vindos da família. “Se em casa as crianças não encontram pais leitores, reforça-se a ideia de que ler é uma obrigação escolar. Se existe uma queda no número de leitores adultos, isso se reflete no público infantil”, diz a especialista. “As crianças precisam estar expostas aos livros antes mesmo de aprender a ler. Assim, elas criam uma relação afetuosa com as publicações e encontram uma atividade que lhes dá prazer.”
O levantamento reforça um traço já conhecido entre os brasileiros: o vínculo entre leitura e escolaridade. Entre os entrevistados que estudam, o percentual de leitores é três vezes superior ao de não leitores (48% vs. 16%). Já entre aqueles que não estão na escola, a parcela de não leitores é cerca de 50% superior ao de leitores: 84% vs. 52%.
Outro indicador revela a queda do apreço do brasileiro pela leitura como hobby. Em 2007, ler era a quarta atividade mais apreciada no tempo livre; quatro anos depois, o hábito caiu para sétimo lugar. Antes, 36% declaravam enxergar a leitura como forma de lazer, parcela reduzida a 28%.
À frente dos livros, apareceram na sondagem assistir à TV (85% em 2011 vs. 77% em 2007), escutar música ou rádio (52% vs. 54%), descansar (51% vs. 50%), reunir-se com amigos e família (44% vs. 31%), assistir a vídeos/filmes em DVD (38% vs. 29%) e sair com amigos (34% vs. 33%). "No século XXI, o livro disputa o interesse dos cidadãos com uma série de entretenimentos que podem parecer mais sedutores. Ou despertamos o interesse pela leitura, ou perderemos a batalha", diz Christine Castilho Fontelles, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, que há 13 anos promove ações de incentivo a leitura.
Um levantamento recente do Ecofuturo revelou a influência das bibliotecas sobre os potenciais leitores. De acordo com o levantamento, estudantes de escolas próximas a bibliotecas comunitárias obtêm desempenho superior ao de alunos que frequentam regiões sem biblioteca. Nesses casos, o índice de aprovação chega a ser 156% superior, e a taxa de abandono cai até 46%. "Ainda temos uma desafio grande a ser enfrentado, já que grande parte das escolas da rede pública não contam com biblioteca." Uma lei aprovada em 2010 obriga todas as escolas a ter uma biblioteca até 2020. Na época, o movimento independente Todos Pela Educação estimou que, para cumprir com a exigência, o país teria de erguer 24 bibliotecas por dia.
A pesquisa Retrato da Leitura no Brasil foi realizada entre 11 de junho e 3 de julho de 2011 e ouviu 5.012 pessoas, com idade superior a 5 anos de idade, em 315 municípios. A margem de erro é de 1,4 ponto percentual.
In: http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/habito-de-leitura-no-brasil-cai-ate-entre-criancas
Ensino público
Metade das escolas das redes municipal e estadual da região não possui sequer espaço destinado à prática de exercícios. A médica nacional é de 30%
Nathalia Goulart
Pesquisa inédita revela como é o ensino da educação física nas escolas públicas (Thinkstock)
Não é novidade que a região Nordeste apresenta índices educacionais alarmantes. Ao fim do 3º ano do ensino fundamental, ou seja, no período de alfabetização, 78,7% dos estudantes da rede pública ainda não dominam competências básicas de escrita. Do ensino médio, 93,2% saem sem saber o que deveriam. Outro dado divulgado nesta quarta-feira, em São Paulo, reforça a distância entre as unidades públicas de ensino da região e do restante do Brasil (cujo desempenho, vale lembrar, também é sofrível): 51% das escolas das redes municipal e estadual do Nordeste não possuem um espaço destinado à prática de educação física. A médica nacional de escolas com essa deficiência é de 30%. Mais: 74% dos professores da disciplina que não cursaram a universidade atuam na região.
O levantamento Educação Física nas Escolas Públicas Brasileiras é resultado de uma parceria entre Ibope, Instituto Ayrton Senna, Instituto Votorantim e ONG Atletas pela Cidadania. Os melhores índices relativos a infraestrutura foram registrados na região Sul, onde apenas 11% das instituições de ensino não possuem espaço dedicado à educação física. No Sudeste, o número é semelhante: 14%.
"Apesar de o cenário ser otimista em algumas regiões do Brasil, ainda é alarmante a disparidade constatada", diz Ana Lúcia Lima, diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro/Ibope.
Nas unidades localizadas em áreas urbanas, a falta de espaço atinge 19% das escolas, enquanto na zona rural chega a 50%.
Apesar da diferença de infraestrutura entre as regiões, a prática dos professores se revelou bastante similar. Dos 50 minutos de aula, apenas 58% do tempo – ou 29 minutos – é utilizado para atividades físicas propriamente. "O dado nos leva refletir sobre muitas hipóteses, como problemas de planejamento e metodologia ou a falta de equipamentos", diz trecho do estudo, que mostra que 13% das escolas públicas pesquisadas não possuem sequer uma bola de futebol, 45% não têm quadra poliesportiva e 56% não dispõem de vestiários.
Um das surpresas positivas da pesquisa é o percentual relativamente alto de professores com formação superior. Noventa por cento deles concluíram a graduação ou pós, em cursos de especialização e mestrado. Apenas 6% pararam no ensino médio. Entre os que chegaram à universidade, 83% se formaram em educação física, 13% em pedagogia, 4% em dança e outros 4% em gestão escolar. Outra surpresa: 74% se mostraram muito satisfeitos com a carreira.
Para Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna, o preparo e o entusiasmo dos professores são animadores. Contudo, cabe um alerta. "Infelizmente ainda temos dificuldades em transformar a motivação e o estudo desses profissionais em resultados concretos para o esporte e a educação do país. Não podemos nos focar apenas nos insumos, precisamos também colocar energia nos resultados", afirmou Viviane.
Ana Moser, uma das fundadoras da ONG Atletas para Cidadania, ressaltou que os eventos esportivos que o Brasil sediará nos próximos anos são uma oportunidade para discutir a qualidade da educação física na rede pública. "O esporte dentro do âmbito escolar ainda é um assunto pouco tratado e essa pesquisa vem para legitimar esse debate. Vivemos um tempo único para o esporte brasileiro e precisamos pensar no legado social que a Copa do Mundo e as Olimpíadas deixarão para o país."
fevereiro 27, 2012
Segundo o Ministério da Educação, aumento é de 22,22% em relação a 2011
O MEC (Ministério da Educação) divulgou, nesta segunda-feira, o novo piso salarial para professores de escolas públicas do país. O valor é de R$ 1.451, que representa um aumento de 22,22% em relação a 2011.
Conforme determina a lei que criou o piso, o reajuste foi calculado com base no crescimento do valor mínimo por aluno do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) no mesmo período.
A Lei do Piso determina que nenhum professor pode receber menos do que o valor determinado por uma jornada de 40 horas semanais. Questionada na Justiça por governadores, a legislação foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal no ano passado.
Entes federados argumentam que não têm recursos para pagar o valor estipulado pela lei. O dispositivo prevê que a União complemente o pagamento nesses casos, mas, desde 2008, nenhum estado ou município recebeu os recursos porque, segundo o MEC, não conseguiu comprovar a falta de verbas para esse fim.
Em 2011, o piso foi R$1.187 e em 2010, R$ 1.024. Em 2009, primeiro ano da vigência da lei, o piso era R$ 950. Alguns governos estaduais e municipais criticam o critério de reajuste e defendem que o valor deveria ser corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor, como ocorre com outras carreiras.
Na Câmara dos Deputados, tramita um projeto de lei que pretende alterar o parâmetro de correção do piso para a variação da inflação. A proposta não prosperou no Senado, mas na Câmara recebeu parecer positivo da Comissão de Finanças e Tributação.
A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação prepara uma paralisação nacional dos professores para os dias 14,15 e 16 de março com o objetivo de cobrar o cumprimento da Lei do Piso.
janeiro 16, 2012
Em SP, escolas oferecem ensino interdisciplinar; no Rio, crianças de várias idades dividem espaço
Carolina Benevides / Marcelle Ribeiro
RIO e SÃO PAULO - Cerca de cem colégios brasileiros estudam a adoção de projetos pedagógicos inspirados numa escola pública de Portugal considerada revolucionária. Na Escola da Ponte, localizada na cidade do Porto, não há séries, turmas ou salas de aula tradicionais. Os alunos, de idades diferentes e sentados em grupos de mesas, são os que definem a ordem dos estudos e como serão avaliados. Para melhorar a educação, algumas escolas brasileiras já derrubaram paredes, literalmente.
A mudança na escola pública portuguesa aconteceu na década de 1970. Atualmente, o ex-diretor da Escola da Ponte José Pacheco se prepara para ampliar a divulgação do projeto, que pretende tornar alunos e professores mais autônomos e participativos no projeto de aprendizagem. Pacheco pretende criar em Cotia, em São Paulo, um centro de referência para formação de professores e vai voltar à sala de aula à frente de uma escola gratuita que começará a funcionar na cidade no próximo período letivo. Além disso, ele e sua equipe acompanham regularmente cerca de cem colégios brasileiros que de alguma maneira pensam em mudanças.
— Os educadores brasileiros já perceberam que as escolas, do jeito que funcionam, na verdade, não funcionam, produzem ignorância. Alguns enxergam na Ponte uma mudança como a que tem que acontecer no sistema educacional brasileiro — afirma José Pacheco.
Segundo Pacheco, 20 dessas escolas, públicas e particulares, estão mais avançadas nesse sentido, principalmente nos estados de Minas Gerais, Porto Alegre, Paraná e São Paulo.
Alunos podem tirar dúvidas de estudantes do seu grupo
Entre elas estão dois colégios municipais de ensino fundamental da capital paulista: o Amorim Lima e o Campos Salles. Nos dois, a mudança foi tão radical que incluiu a derrubada de paredes. Mas, para respeitar as normas do governo brasileiro, as séries não foram abolidas, como aconteceu na Escola da Ponte.
Na escola Amorim Lima, sete salas de aula viraram dois salões, sendo que o maior comporta até 105 alunos. Em cada um dos salões, as carteiras dos alunos não ficam uma atrás da outra, mas sim arrumadas em círculos, cada círculo com cinco alunos. Ao mesmo tempo, pode haver alunos de séries diferentes, cada um estudando um assunto diferente de uma disciplina diferente. Todos que estão no salão aprendem usando como base roteiros de pesquisa interdisciplinares.
Num salão, como os da escola Amorim Lima, o quadro negro é pouco usado e os professores — um para cerca de 30 alunos — estão ali para tirar dúvidas, e o professor de uma disciplina pode ser chamado para tirar dúvida sobre outra disciplina.
— A ideia é que o estudante que tiver dúvidas peça ajuda a outro integrante de seu grupo. Se ele não souber, pede ajuda ao professor. Se o professor que o atender não souber, ele pede ajuda a outro professor — explica a diretora da escola Amorim Lima, Ana Elisa Siqueira.
Além disso, são programadas "oficinas" semanais, que podem ser aulas expositivas, feitas em outros espaços. O desenvolvimento dos alunos é acompanhado de perto pelos tutores. Cada aluno tem um tutor que, em reuniões semanais, conversa sobre as dificuldades encontradas e os avanços.
Aluno do 7 série do ensino fundamental, na escola Amorim Lima, Luca Mazzola, de 13 anos, faz algumas críticas ao método:
— Acho que aqui os alunos estão num nível um pouco abaixo de aprendizado do que na escola particular em que eu estudava antes. É ruim os alunos não aprenderem as mesmas coisas ao mesmo tempo.
Na escola Campos Salles, os alunos de séries diferentes não foram misturados nos salões. Também há roteiros de estudo, grupos e tutores, além de uma comissão para mediar conflitos formada por 12 alunos e monitorada por um professor. Quem explica o funcionamento é Keila Ramos Verdelho, de 9 anos, aluna da 3 série:
— Quando um aluno está mal na escola ou está bagunçando, reunimos a comissão mediadora. A gente conversa e dá chances para a pessoa melhorar. Se ela não melhora, a gente faz reunião com os pais e o diretor — conta Keila: — Uma vez, chamamos uma mãe para conversar e ela disse que não falaria com crianças. Aí, o diretor disse que ou ela conversava com a gente ou não conversava com ninguém. O problema foi resolvido.
Desde que a escola mudou o sistema de ensino, em 2006, as média obtidas no Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb) — criado pelo Ministério da Educação para medir a qualidade da educação — , melhoraram e ultrapassaram as metas previstas pelo governo.
— Mas o que mais tem valor para nós é que antes nós perguntávamos para um aluno da 8 série sobre as perspectivas de vida dele e víamos que ele não sonhava. Hoje mudou tudo, eles sonham em fazer faculdade — afirma o diretor da escola Campos Salles, Braz Rodrigues Nogueira.
No Rio, crianças de diferentes idades juntas
No Rio, crianças matriculadas na Escola Edem podem ter a experiência de conviver com alunos de várias idades. Para isso, precisam frequentar o horário extensivo, oferecido para crianças de 1 a 10 anos.
— Os pais podem matricular seus filhos na série regular, por exemplo, no turno da tarde e deixá-los na escola de manhã fazendo várias atividades extracurriculares. Então, eles são divididos em dois grupos: um para crianças de 1 a 5 anos e outro para as que têm entre 6 e 10 anos — conta Claudia Fenerich, assessora pedagógica da escola:
— Não é um aprendizado formal, ainda que as crianças tenham ajuda para fazer o dever de casa. Durante esse horário extensivo, elas têm atividades como natação, teatro e inglês e participam de passeios. O interessante é que os maiores ajudam aos menores, os menores se espelham nos maiores, elas crescem com mais autonomia, têm muita interação social.
— Esse contato com diferentes idades faz com que a criança seja mais solidária e amadureça. Além de proporcionar um grande número de amizades — diz Ana Bezerra, mãe de Carolina, de 11 anos, e que, desde os 4, frequentou o Horário Extensivo.
Mãe de um menino de 8 anos, Rosana Soares Zouain conta que, há dois anos, optou pelo horário extensivo para não deixá-lo em casa com uma babá:
— Achei mais interessante e não me arrependi. O Lucas era muito tímido e a convivência com crianças de várias idades fez ele ficar mais despachado.
Na Escola Sá Pereira, alunos matriculados no ensino infantil também podem conviver com crianças de várias idades:
— Temos essa estratégia de atendimento há tempos e percebemos que as crianças se tornam mais flexíveis, solidárias, tolerantes e com mais capacidade para desenvolver a cooperação — conta Maria Teresa Moura, diretora da Sá Pereira.
URL: http://glo.bo/xNO6gq
Notícia publicada em 15/01/12 - 23h30Atualizada em 15/01/12 - 21h44Impressa em 16/01/12 – 09h09
In: http://oglobo.globo.com/educacao/todos-juntos-misturados-na-escola-3677448